Caro amigo,

 

 

Desde o início do meu interesse pela fotografia, toda a informação e conhecimento que busquei foram sempre por meio da internet e livros. Hoje em dia, é possível encontrar praticamente qualquer informação técnica relacionada à fotografia online.  Se ainda assim não encontrasse o que procurava, haveria uma infinidade de fóruns dedicados ao assunto para sanar dúvidas e debater ideias.

Aprendi a dominar ISO, obturador, velocidade, usos de flash, modos de foco, modos de fotometria, leitura de histograma, regra dos terços, Golden Hour, Blue Hour, profundidade de campo e a lista vai longe, porém certos fatores para uma boa fotografia não estão nesta lista e dificilmente podem ser aprendidos online.

Resolvi pesquisar sobre workshops de fotografia na região de Joinville e Florianópolis quando, para minha surpresa, em meio a tantos cursos de fotografia social, descobri que a Escola Câmera Criativa estaria trazendo o fotógrafo Jorge Aguiar para ministrar um workshop sobre fotografia de rua. Inscrevi-me.

Jorge Aguiar é um fotojornalista natural de Porto Alegre com mais de 40 anos de carreira. Possui diversos trabalhos na área social, com projetos reconhecidos e premiados no Brasil e fora dele.

Sendo este meu primeiro workshop, não sabia muito o que esperar. Meu receio era de que veria mais daquilo que já encontramos aos montes na internet: regra dos terços, ISO, velocidade, obturador, etc… não poderia estar mais enganado.

Conheci o Jorge no dia anterior ao início do curso. Em menos de 5 minutos de conversa, ele me pergunta: “vamos tomar uma cerveja?”. O workshop começou naquele momento e o que se seguiu foram conversas sobre fotografia, vida, pessoas e história.

Os dois dias seguintes foram uma continuação do primeiro. Pela manhã, Jorge iniciou o workshop falando sobre a fotografia de rua, conceitos, obras e fotógrafos que deveríamos estudar, respondeu às nossas perguntas sem rodeios: qual editor de imagens você utiliza? Quais lentes? Etc, etc… então fomos para as ruas, ganhamos uma temática e produzimos imagens.  Só voltaríamos para a sala de aula no dia seguinte, para análise das imagens e voltamos para as ruas.

O workshop com Jorge Aguiar é muito mais uma vivência do que um workshop propriamente dito. As lições que Jorge passa através de suas histórias passam ao largo de conceitos técnicos sobre o que faz uma boa fotografia. Abaixo são os 5 pontos principais que aprendi durante estes 3 dias:

 

 

  1.    Todas as manhãs, olhe no espelho e diga para você mesmo: “Eu sou fotógrafo!”

Muitas vezes ao fotografar nas ruas, pessoas se aproximavam e perguntavam se eu era fotógrafo e a resposta era sempre a mesma: – não, é apenas hobby!

De alguma maneira era mais fácil dar esta resposta, talvez para não gerar algum tipo de expectativa a qual eu não me sentiria preparado para atender. Jorge me ensinou que se eu quero ser visto como fotógrafo, a primeira pessoa que precisa ser convencida sou eu mesmo. SIM, EU SOU FOTÓGRAFO!

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  1.    Se as suas fotos não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente.

Sim, eu sei que esta frase é de Robert Capa e na verdade ela não foi sequer dita desta mesma maneira, mas através de suas histórias era sobre isso que ele estava falando. Os projetos de Jorge Aguiar são voltados para as periferias e trazem à tona problemas sociais (Projeto Manas Lisas da Periferia), realidades que são negligenciadas no dia-dia (MEIO-FIO vida de cadeirante), entre outros, e a primeira coisa que podemos notar na sua fotografia é a sua intimicidade. Voltando à frase de Capa, hoje eu a interpreto de uma maneira um pouco diferente. Chegar mais perto não significa apenas utilizar uma grande angular e aproximar-se fisicamente, mas sim uma aproximação sentimental entre o fotógrafo e o retratado, é criar intimidade entre as duas partes, estabelecer uma conexão entre as partes, pois é isso que torna a fotografia mais verdadeira, que a legitima, que dá força ao retrato. Imersão! Tenha sempre a cabeça aberta e saiba imergir na história das pessoas que as suas lentes estão registrando.

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  1.    Não seja exigente demais consigo mesmo!

Muitas vezes quando saímos para fotografar nos frustramos se ao voltarmos para casa não conseguimos nenhuma fotografia excepcional. Jorge nos mostrou que isso é normal e que ele mesmo, apesar de toda sua experiência, muitas vezes apaga todas as fotos tiradas naquele dia, sem peso na consciência! Faz parto do processo de fotografar.

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  1.    Fotografe mais!

Sim, eu disse que é ok se você voltar para casa e não tiver nenhuma fotografia legal, porém não deixe isso lhe impedir de fotografar. Fotografia é prática! O olho precisa ser constantemente treinado. Se pararmos para pensar, em todas as profissões é necessário treino para aprimoramento: atletas, arquitetos, engenheiros, dentistas, etc. Na fotografia não é diferente. Na fotografia de rua e documental, e também em tantas outras, um fator é importantíssimo para o fotógrafo: tempo de reação! Algumas cenas acontecem apenas por frações de segundo e nessa hora o fotógrafo precisa compor e ajustar sua câmera com bastante agilidade. A prática e o treino lhe trarão essa agilidade.

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  1.    Não se limite pelo seu equipamento e/ou se prenda a detalhes muito técnicos da fotografia

No dia que conheci Jorge Aguiar, ele estava com uma pequena Canon T3i a tira colo, junto com a infame 18-55mm do kit. Me contou que tem outro equipamento mais robusto, mas que, devido ao peso (e a idade rsrs), ultimamente carregava com muito mais frequência este pequeno kit. Ainda, ao ver que eu fotografava utilizando o recurso do AF-ON (AF-L em manual, na fuji X-E1), humildemente me pediu se podia configurar o mesmo em sua Canon. Ali, aprendi duas lições. A primeira é de termos a ciência de que jamais saberemos tudo e, sendo assim, ser humilde para perguntar quando não sabemos algo. A segunda, e mais importante, é a de não se deixar limitar pelo equipamento. Afinal, uma boa fotografia feita com uma lente do kit sempre é melhor que uma fotografia ruim feita com a lente mais cara. Veja bem, não sou contra ter um equipamento top de linha, porém vejo muita gente que acredita que o equipamento faz o fotógrafo, quando na realidade é o contrário. Talvez esse seja um dos poucos efeitos negativos que a internet produziu entre a nova geração de fotógrafos: lemos muitos reviews de equipamentos, gráficos de nitidez, aberração cromática, fotos de paredes de tijolos, etc., e esquecemos que isso pouco determina o quão boa realmente é a sua fotografia. Em vez disso, deveríamos estar estudando o comportamento social das pessoas, como realizar uma abordagem, como ser estabelecer uma conexão com uma pessoa de maneira mais rápida, técnicas de interação social.

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Em resumo, recomendo o curso com Jorge Aguiar? Se você se identifica com os pontos que citei acima, certamente! Esteja preparado para um formato não tradicional de workshop e sim para uma vivência. As lições não serão entregues de maneira óbvia para você, sendo necessário quebrar preceitos e imergir na experiência, escutar as histórias e conselhos, que não serão exatamente de como fazer e sim questionamentos e uma autorreflexão.

Gostaria de agradecer ao fotógrafo Jorge Aguiar pelos ensinamentos, conversas e, mais importante a amizade que foi construída nestes dias de convivência, e também ao Radilson e a Luila, responsáveis pela Escola Câmera Criativa, em Florianópolis, por ter proporcionado esta experiência.

Obs.: A temática do exercício de fotografia de rua foi o acúmulo de lixo no centro da cidade devido a greve dos garis.

Site da Câmera Criativa:

www.cameracriativa.com.br

Site Jorge Aguiar:

http://jorgeaguiarfotografo.blogspot.com.br/