Como fotógrafo, ao pesquisar sobre novos temas, eventos ou celebrações para fotografar um dos quesitos analisados são geralmente os gráficos e/ou visuais: cores, luz, grafias, figurinos, o local onde ocorre, e assim por diante. Quando há um evento que envolva tradição secular, fé, figurinos diferenciados, tochas acesas, tudo acontecendo em uma cidade histórica, a atenção é imediatamente despertada e o que segue é um natural interesse para descobrir mais sobre tal evento.

Assim que vi fotografias feitas na Procissão do Fogaréu, que ocorre na cidade de Goiás desde 1745, tive vontade imensa de vê-la com meus próprios olhos e fotografá-la através de minhas lentes. Quando comecei a planejar meu roteiro de viagem ao Norte do Brasil, vi que seria possível encaixar uma semana em Goiás. Não pensei duas vezes: vou assistir o “Fogaréu”, como mais tarde aprendi que o pessoal local carinhosamente se refere a Procissão.

Sobre o Fogaréu, esta encenação foi trazida a Goiás por um padre Espanhol, e simboliza a perseguição e prisão a Jesus Cristo pelos soldados romanos. E assim, toda meia-noite da quarta para a quinta-feira Santa, quarenta soldados romanos vestidos como farricocos carregando tochas acesas se postam em frente ao Museu de Arte Sacra da Boa Morte. As luzes do entorno são apagadas e a banda que acompanha os farricocos inicia a toada que determina o ritmo da procissão, que segue pelas estreitas e não pavimentadas ruas do centro histórico da cidade de Goiás.

 

Naquela quarta-feira as horas do dia teimaram em passar lentamente, aumentando minha ansiosidade. Ainda na mesma noite, acompanhei a missa que acontece na Igreja Matriz e a encenação da Via Sacra, porém meu pensamento já estava no Fogaréu. Antes da meia-noite, tive a oportunidade de acompanhar os preparativos, que se resumem a veste dos figurinos e a rápidos ensaios da banda e dos farricocos. Tudo aqui acontece muito rápido e em menos de uma hora os farricocos já marcham em direção ao Museu da Arte Sacra onde uma multidão os espera.


 

 

 

 

E então a procissão começa…

 

 

Acompanho os farricocos descendo pelas ruas em direção ao Museu. Confiro pela centésima vez as configurações da minha câmera: ISO, ok! Modo de medição de luz, ok! Foco, ok! Bateria e cartão reservas no bolso, tudo certo! E ali estava, até aquele momento, senhor de mim mesmo e dos meus sentidos. No próximo instante me dou conta que estou em frente aos farricocos, com seus capuzes e vestes coloridas que fascinam e ao mesmo tempo causam pavor, sentindo o calor das tochas a aquecer o rosto e o som da banda marcial indicando que a procissão começaria a qualquer instante. Neste momento, é impossível não ser levado a um estado de consciência paralelo. Esqueça qualquer coisa: à partir do momento que as tochas são acesas e a banda inicia a toada da marcha, é como entrar em estado de transe! Seus sentidos são invadidos de tal maneira que a própria consciência de tempo e espaço se torna difusa.

 

 

Sem mais conseguir pensar nas configurações da câmera, começo a fotografar, totalmente imerso naquela experiência. Os farricocos iniciam sua marcha, que segue velozmente pelas ruas. Eu já disse que tudo acontece muito rápido? Em questão de minutos e a primeira parada acontece, em frente ao Santuário Nossa Sra. do Rosário. Instantes se passam e a marcha reinicia, sempre rápida e determinada, pois Jesus não fora encontrado e a busca deve continuar. Em frente a Igreja São Francisco de Paula, os farricocos finalmente encontram Jesus, simbolizado por um mastro com sua imagem. Após a prisão, o grupo segue a procissão, retornando ao ponto inicial, onde tudo termina e eu pude, lentamente, retomar posse dos meus sentidos e tentar entender tudo o que aconteceu naqueles intensos minutos que se passaram. Olho para o relógio e percebo que não foram apenas alguns minutos e sim noventa minutos. Entendo, então, que Einstein estava certo: o tempo pode sim ser relativo, e eu acabara de voltar do ano de 1745, onde o Fogaréu aconteceu pela primeira vez.

 

Noto que ainda carrego minha bolsa onde há uma segunda lente (que nem por segundo lembrei ou cogitei usar). Sento na calçada em frente à Igreja e confiro se a câmera, de fato, registrou alguma imagem. É o máximo que consigo no momento, conferir se foco e exposição estavam corretos fica para amanhã. A caminhada de volta para onde estava hospedado foi leve. Deito na cama e tento dormir e quando percebo já são quatro horas da manhã. Realmente, ouvi falar que viagens no tempo tiram o sono.