Intensa. Esta é a melhor definição que consigo encontrar para explicar o que foi a Procissão do Fogaréu. No dia seguinte à procissão, acordei com aquela sensação gostosa quando conseguimos realizar algo que há tempo almejamos, um sentimento de dever cumprido. Contrariando o hábito que tenho de somente editar as fotos algumas semanas após terem sido feitas, passei a tarde no confortável Café Jasmim, localizado aos fundos do Museu da Arte Sacra, revendo e editando as imagens no embalo de  bossa nova, um bom café e um delicioso pedaço de bolo de laranja com cobertura de chocolate. Enquanto trabalho no meu computador, me preparo para a procissão que aconteceria logo mais, à noite, a Procissão dos Penitentes.

Gosto de dormir cedo e acordar cedo. Durante o tempo que passei na Nova Zelândia foram inúmeras manhãs onde levantei muito antes do sol nascer para trilhar caminhos e fotografar paisagens. Minha luz preferida é aquela logo antes do sol nascer, para mim, uma hora mágica, uma recompensa da natureza para aqueles que se dispõe a acordar cedo. Fotografar as procissões em Goiás, que iniciam próximo da meia-noite, confundiram meu relógio “fotográfico”. As tardes e noites que antecederam às procissões pareciam intermináveis.

A Procissão dos Penitentes estava programada inicia às 23h, parte da Igreja São Francisco de Paula rumo ao cemitério. Diferente da noite anterior, poucas pessoas esperavam o início da procissão.

 

Às 23h30m os penitentes chegam e prontamente iniciam-se os ritos. Olho em minha volta e para minha surpresa desta vez não há imprensa ou cordão humano para proteger os penitentes. Tenho liberdade quase irrestrita de me movimentar e buscar ângulos diferentes. Na noite anterior, a intensidade da procissão me colocou em estado de consciência paralelo. Nesta noite, novamente vivi experiência similar, porém através da imersão no ato de fotografar. A procissão dura cerca de 1h30m. Quando me dou por conta, já estou em frente ao cemitério, parada final da procissão.

Sobre a procissão em si, acredito que as imagens falem por si. Uma experiência completamente diferente da que tive no dia anterior, mas igualmente bela e inesquecível.

A sexta-feira Santa foi um dia longo. Fiz o caminho da Via Sacra, junto ao Bispo e alguns fiéis, saindo da Igreja Matriz e se deslocando até o Morro do Cruzeiro. Caminhada longa recompensada pela vista da cidade de cima do morro. Na volta, paro na Igreja da Abadia para assistir o Canto dos Perdões. A diversidade é algo que me encanta no Brasil. Apesar de criado dentro do catolicismo, as festividades da Semana Santa católica de Goiás eram algo novo para mim. Terminado os cantos gregorianos dos Perdões, volto, exausto, para meu quarto. A sexta-feira ainda teria uma encenação da Via Sacra em frente ao Monumento da Bandeira, seguida da Procissão do Sr. Morto, onde carregam uma imagem de Jesus pelas ruas da cidade. Decido que o foco da minha fotografia nesta procissão seria a multidão que seguia a imagem de Jesus portando velas e orando. A fé e a devoção do povo Goiano é algo muito interessante e expressada de maneira diferente de que estou acostumado a ver.

A medida que a semana passa e as festividades vão chegando ao fim, começo a sentir a intensidade dos últimos dias. Talvez alguns duvidem, porém fotografar é uma atividade desgastante: fotografar exige um grande esforço mental.

Não espero o sétimo dia e aproveito o sábado para descansar. Sem planejamentos, percebo-me sentado na Igreja Matriz assistindo a missa da Vigília Pascal. Fui criado dentro da doutrina católica porém há um tempo já não sigo doutrinas religiosas. Mesmo assim estava ali,  agradecendo e orando à minha própria maneira ao Universo.

Experiências que vivemos moldam nossa filosofia de vida e não foi necessário terminar a Semana Santa em Goiás para que percebesse que esta experiência era uma destas.

 

Leandro